O Perfuraneve - Lob, Rochette e Legrand / Expresso do Amanhã (Joon-Ho Bong; 2014)

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“E o motivo todo mundo já conhece: é que o de cima sobe e o de baixo desce”.

É com essa icônica frase do finado grupo Rouge que inicio o post sobre a graphic novel O Perfuraneve e o filme baseado na obra, Expresso do Amanhã. Se você está à procura de distopias, povos oprimidos e finais angustiantes, continue lendo.
Considerada uma das melhores HQ's de ficção científica, a trama de O Perfuraneve se passa na terrível e eterna Era do Gelo, onde a sobrevivência humana parece impossível. Porém, cruzando as infinitas terras devastadas, o último bastião da humanidade segue, imparável, sobre os trilhos: o Perfuraneve. Esse trem fantástico, de tecnologia revolucionária, é capaz de cruzar a Terra eternamente em moto-contínuo, abrigando os últimos representantes da espécie humana. O que seria a salvação do homem, no entanto, torna-se com o tempo uma cruel reprodução dos bons e velhos mecanismos que levaram o planeta à destruição, incluindo a rígida estratificação social, a opressão política como forma de dominação, o embuste religioso e a consequente alienação.

Resenha:

Um governo opressor, sistema social de castas, medidas governamentais que favorecem a classe mais abastada e tiram os privilégios das classes menos abastadas, quase os desumanizando. Você poderia enumerar alguns países que tem tais características, assim como livros com o tema distopia. O que faz O Perfuraneve ser tão interessante assim?

Quantas histórias distópicas você já leu onde o mundo inteiro estava confinado dentro de um meio de transporte? Pois Lob, Rochette e Legrand criaram um universo inteiro dentro de um trem.

Antes de começarmos a falar sobre o livro em si, vou te explicar duas coisinhas rápidas: 1) O Perfuraneve propriamente dito é apenas a primeira história do livro. Jean-Marc Rochette escreveu apenas ela; e 2) essa graphic novel contém duas histórias, escritas por autores diferentes, mas desenhadas pelo mesmo artista.

Dito isso, vamos ao que interessa: opressores e oprimidos.
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O universo que vamos encontrar dentro do trem Perfuraneve (um trem antes comercial, mas que foi remodelado para comportar o resto da humanidade, com sistema de locomoção infinito) é algo completo e complexo.

A primeira história (O Perfuraneve) começa quando o protagonista Proloff decide quebrar uma janela do trem e se matar, mas acaba sendo impedido e o general no comando decide leva-lo até o presidente para ele ser julgado.

Entenda o seguinte: o resto da humanidade é comportada no trem pelo fato de, durante uma guerra, armas nucleares terem sido lançadas e desestruturado todos os climas do mundo, fazendo com que tudo ficasse à extremas temperaturas negativas.
Caso Proloff quebrasse a janela do trem para se matar, o frio iria entrar no trem e iria matar tudo dentro.

Quando ele é levado para o presidente do trem, acompanhado de uma moça que comanda movimentos liberais para que a população que vive na cauda do trem seja relocada em outros vagões, começa uma odisseia através do mundo confinado do trem.

O trem funciona da seguinte maneira: cada classe tem seu vagão. O primeiro vagão é a locomotiva (onde ficam os controles da máquina), logo após ficam os chamados vagões dourados (onde, obviamente, fica a classe alta). Depois temos diferentes tipos de vagões: o vagão frigorífico, a cadeia, prostíbulos, vagão de processamento de alimentos, herbário e por fim, na cauda do trem, os vagões destinados aos pobres.
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Essa primeira história – e a mais interessante – tem como premissa nos mostrar todo o funcionamento desses sistemas: como o trem funciona, como são as divisões sociais, como se deu o início do fim do mundo, como as pessoas foram locadas lá dentro. Tudo que vocês imaginarem que há numa sociedade, vocês vão encontrar no Perfuraneve.

A segunda história (O Explorador) já é diferente da primeira, com outros personagens e em outro trem. Dessa vez, embarcamos no Desbravaneve, um trem alienado, com o mesmo sistema de movimento do Perfuraneve, mas muito maior e governado pelo clero, por medidas que visam pôr os habitantes no seu devido lugar por meio do medo.

O protagonista dessa segunda história é o explorador Puig, que serve como bode expiatório depois que um outro explorador morre durante uma saída do trem. Nesse caso, ao ser levado para o comandante do trem, vemos um mundo diferente, mas igual ao anterior. A base é a mesma, mas o modo de governar é diferente: as pessoas preferem viver num mundo fantasioso (realidades virtuais) do que encarar os problemas em que estão vivendo. Nisso, o clero toma as rédeas, causando pânico nas pessoas, insinuando que a Santa Locomotiva um dia pare e eles todos morram.

(Os exploradores são homens treinados para sair do trem e procurarem resquícios do mundo antigo para os moradores dos vagões dourados)
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A terceira história (A Travessia) é uma continuação da segunda, mas com alguns anos de diferença. Os personagens são os mesmos, mas os problemas são bem maiores, já que agora eles têm de lidar com uma informação importante: um sinal, uma mensagem, está sendo transmitida incessantemente e sendo captada pelos controles do Desbravaneve. Serão outras pessoas vivas? Será que eles não são os últimos no mundo?

Os finais das três histórias são angustiantes e o modo como cada atitude foi se acumulando para fazer com que os protagonistas tomassem aquelas atitudes é muito bem elaborado. Apesar de não explicarem o fato de como um segundo trem foi construído, sendo que o Perfuraneve era “o restante da humanidade”, o que sobra é aceitável.

A primeira história me cativou mais pelo fato de mostrar toda a estrutura do trem, sem deixar de contar a história principal, sem deixar de desenvolver os personagens. A tristeza de Proloff e o modo como ele recusar ser o líder de uma revolução, me cativou. As duas seguintes me pareceram desnecessárias, mesmo abordando outros aspectos importantes como o papel da religião, controle de natalidade, as crianças.
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Já o filme Expresso do Amanhã, lançado em 2014 e dirigido por Joon-Ho Bong é um filme muito bem feito e com certeza captou toda a essência da primeira história, também nos dando personagens bons e um final igualmente angustiante.

Estrelando Chris Evans (ou como gosto de chama-lo: Cauã Reymond norte-americano) como Curtis, habitante da cauda do trem Perfuraneve, o filme tem uma motivação diferente das anteriormente mencionadas: após terem suas crianças levadas contra sua vontade, as pessoas reforçam a ideia de um levante.

Dessa vez, é a não-aceitação da sua condição social que motiva os personagens a tomarem o controle do trem, também atravessando todos os vagões do trem até o presidente e inventor do Perfuraneve (interpretado por Ed Harris).

Dessa vez, o protagonista assume a posição de líder da revolução e tem que lidar com uma pergunta bastante significativa: depois de tomar a locomotiva e tirar o presidente do comando, o que ele irá fazer?

O filme tem cenas incríveis: os oprimidos atravessando o vagão que processa e fabrica o alimento que os habitantes da cauda comem; a sequência deles lutando contra uma milícia separatista é simplesmente incrível e absurda, devido ao pouco espaço que eles tinham para gravar e a coreografia maravilhosa dos atores.

O fim do filme é bem planejado, mas deixou um pouco a desejar. Em questão de adaptação, o filme é ótimo.

“Crítica social fuderosa demais lacrou”!

CLASSIFICAÇÃO PARA O LIVRO: 3 estrelas

CLASSIFICAÇÃO PARA O FILME: 4 estrelas

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